Neste artigo nosso interesse é analisar a gênese e o desenvolvimento da trigonometria, o aparecimento
do conceito de função trigonométrica e, em particular, o das
funções seno e cosseno[1]. Nossa motivação para escrevê-lo está
na crença da importância que tem para quem ensina
Matemática o conhecimento do como e do porquê do surgimento de um
novo conceito e quais as transformações e evoluções por ele sofridas. Além disso,
acreditamos que o estudo histórico
do surgimento de um conceito é importante, pois evidencia os
obstáculos epistemológicos[2] do processo de construção do saber
matemático. A análise desses obstáculos, vividos pelos matemáticos
no passado, nos ajuda a compreender as dificuldades dos alunos de hoje
e, por outro lado, o nosso entendimento da própria História e
evolução da Matemática podeser ampliado a partir da análise dos erros e embaraços dos estudantes.
(Arsac, 1987; Sierpinska, 1985; Vergnaud, 1994).
Para considerar a gênese, devemos discutir qual o significado que daremos ao termo Trigonometria. Se o tomarmos como a ciência analítica estudada atualmente, teremos a origem no século XVII, após o desenvolvimento do simbolismo algébrico. Mas, se o considerarmos para significar a geometria acoplada à Astronomia, as origens remontarão aos trabalhos de Hiparco, no século II a.C., embora existam traços anteriores de seu uso. Se o considerarmos, ainda, para significar literalmente “medidas do triângulo”, a origem será no segundo ou terceiro milênio antes de Cristo.
Limitaremos
este nosso trabalho ao desenvolvimento da idéia de funções
trigonométricas
em R dando, porém, um esboço das raízes desta ciência, desde as
tabelas de
sombras
(século XV a.C.) até a expansão das funções trigonométricas em
séries (século XVIII).
Estudar
a história da trigonometria também permite observar o surgimento e
o progresso
da
Análise e da Álgebra, campos da Matemática nela contidos de forma
embrionária.
A
trigonometria, mais que qualquer ramo da matemática, desenvolveu-se
no mundo antigo a partir
de
necessidades práticas, principalmente ligadas à Astronomia,
Agrimensura e Navegação.
Dividiremos
esse artigo em sete partes: As raízes da Trigonometria; A
Trigonometria na Grécia; A contribuição dos Hindus; A
Trigonometria dos Árabes e dos Persas; A Influência do
Conhecimento
Árabe sobre os Europeus; A Trigonometria na Europa a partir do
século XIV e A Trigonometria Incorporada pela Análise Matemática.
- AS RAÍZES DA TRIGONOMETRIA
Os
primeiros indícios de rudimentos de trigonometria surgiram tanto no
Egito quanto na Babilônia,
a partir do cálculo de razões entre números e entre lados de
triângulos semelhantes. No
Egito, isto pode ser observado no Papiro Ahmes, conhecido como Papiro
Rhind[3], que data de
aproximadamente 1650 a.C., e contém 84 problemas, dos quais quatro
fazem menção ao seqt de
um ângulo.
Ahmes
não foi claro ao expressar o significado desta palavra mas, pelo
contexto, pensa-se que
o seqt de uma pirâmide regular seja equivalente, hoje, à cotangente
do ângulo OMV.
Seja
OV = 40 e OM = 80,
então
o seqt = 80/40
isto
é: seqt = 2
Na
construção das pirâmides era essencial manter uma inclinação
constante das faces, o que levou os egípcios a introduzirem o
conceito de seqt, que representava a razão entre afastamento
horizontal e elevação vertical.
Além
da utilização da trigonometria nas medições das pirâmides,
apareceu no Egito (1500 a.C. aproximadamente) a ideia de associar
sombras projetadas por uma vara vertical a sequências numéricas,
relacionando seus comprimentos com horas do dia (relógios de sol).
Poderíamos dizer então que essas ideias estavam anunciando a
chegada, séculos depois, das funções tangente e cotangente. Os
predecessores da tangente e da cotangente, no entanto, surgiram de
modestas necessidades de medição de alturas e distâncias. Como já
mencionamos, os primeiros vestígios de trigonometria surgiram não
só no Egito, mas também na Babilônia. Os babilônios tinham grande
interesse pela Astronomia, tanto por razões religiosas, quanto pelas
conexões com o calendário e as épocas de plantio. É impossível
estudar as fases da Lua, os pontos cardeais e as estações do ano
sem usar triângulos, um sistema de unidades de medidas e uma escala.
Os
babilônios foram excelentes astrônomos e influenciaram os povos
posteriores. Eles construíram no século 28 a.C., durante o reinado
de Sargon, um calendário astrológico e elaboraram, a partir do ano
747 a.C, uma tábua de eclipses lunares. Este calendário e estas
tábuas chegaram
até os nossos dias (Smith, 1958).
Parece
ter existido uma relação entre o conhecimento matemático dos
egípcios e dos babilônios. Ambos, por exemplo, usavam as frações
de numerador 1. Também é plausível supor que os povos posteriores
tivessem conhecimento da trigonometria primitiva egípcia. Um
importante conceito no desenvolvimento da Trigonometria é o conceito
de ângulo e de como efetuar sua medida, uma vez que ele é
fundamental em diversas situações, como na compreensão das razões
trigonométricas em um triângulo retângulo (números que dependem
dos ângulos agudos do triângulo e não da particular medida dos
lados). Existem evidências de tentativas de medi-los, em datas muito
remotas, pois chegaram até nossos dias fragmentos de círculos que
parecem ter feito parte de astrolábios primitivos, provavelmente
usados com propósito de medições (Smith, 1958).
Uma
trigonometria primitiva também foi encontrada no Oriente. Na China,
no reinado de Chóu-pei Suan-king, aproximadamente 1110 a.C., os
triângulos retângulos eram frequentemente usados para medir
distâncias, comprimentos e profundidades. Existem evidências tanto
do conhecimento das relações trigonométricas quanto do conceito de
ângulo e a forma de medi-lo mas, infelizmente não temos registro de
como eram feitas as medições e quais as unidades de medida usadas.
Na literatura chinesa encontramos uma certa passagem que podemos
traduzir por: “O conhecimento vem da sombra, e a sombra vem do
gnômon”, o que mostra que a trigonometria plana primitiva já era
conhecida na China no segundo milênio a.C.. No mundo Ocidental, o
saber dos egípcios foi seguido pelo dos gregos. É reconhecido que,
se os egípcios foram seus mestres, não tardou para que estes fossem
superados pelos discípulos. Na Grécia a Matemática teve um grande
desenvolvimento, e a civilização grega passou a servir de
preceptora a todas as outras nações.
- A TRIGONOMETRIA NA GRÉCIA
Segundo
o historiador Heródoto (490 - 420 a.C.), foram os gregos que deram o
nome gnômon ao relógio de sol que chegou até eles através dos
babilônios, embora já tivesse sido utilizado pelos egípcios antes
de 1500 a.C..
O
mais antigo gnômon de que temos conhecimento e que chegou até
nossos dias, está no museu de Berlim (Eves, 1995). Ele evidencia e
reforça a hipótese de que a trigonometria foi uma ferramenta
essencial para observação dos fenômenos astronômicos pelos povos
antigos, uma vez que a documentação relativa a esse período é
praticamente inexistente.
O
gnômon era uma vareta (GN na figura 2) que se espetava no chão,
formando com ele um ângulo de 90º, e o comprimento de sua sombra
(AN) era observado, num horário determinado: meio dia. Uma
observação dos limites da sombra permitia medir a duração do ano
e o movimento lateral diário do ponto A permitia medir a duração
do dia.
Como
o tamanho do gnômon era constante, ou seja, usava-se sempre a mesma
vareta, na mesma posição, o comprimento de AN ao meio dia variava
com o ângulo A. Para nós isto significa uma colocação de AN, ou
AN/GN como uma “função” do ângulo A, nos dias de hoje
denominada cotangente. Porém, não temos nenhum vestígio do nome no
período.
Sabemos
que os diversos ramos da Matemática não se formaram nem evoluíram
da mesma maneira e ao mesmo tempo, mas sim gradualmente. O
desenvolvimento da trigonometria está intimamente ligado ao da
geometria. Neste campo, a Grécia produziu grandes sábios; entre
eles Thales (625 - 546 a.C.), com seus estudos de semelhança que
embasam a trigonometria, e seu discípulo Pitágoras (570 - 495
a.C.). Conjectura-se que este último tenha feito a primeira
demonstração do teorema que leva seu nome: “Em todo triângulo
retângulo a área do quadrado construído sobre a hipotenusa é
igual à soma das áreas dos quadrados construídos sobre os
catetos”. Deste teorema deriva a relação fundamental da
trigonometria.
A
Escola Pitagórica, fundada no século V a.C., foi responsável por
descobertas na acústica, elaborando uma lei de intervalos musicais.
Essa lei relacionava os diapasões de notas emitidas por cordas
distendidas, sob tensões iguais, aos comprimentos das cordas.
Podemos tomar a lei dos intervalos musicais como um prenúncio do
aparecimento das funções seno e cosseno no osciloscópio do futuro,
para se estudar o som (Bell, 1945).
A
primeira amostra documentada de contribuição grega para o estudo da
trigonometria apareceu por volta de 180 a.C. quando Hipsícles,
influenciado pela cultura babilônica, dividiu o zodíaco em 360
partes. Essa idéia foi posteriormente generalizada por Hiparco para
qualquer círculo (Eves, 1995).
Por
volta do ano 200 a.C. os astrônomos gregos estavam muito
interessados em calcular a distância entre dois pontos da superfície
terrestre e também o raio da Terra. Foi Eratóstenes de Cirene (276
-196 a.C.), contemporâneo de Arquimedes (287-212 a. C.) e Aristarco
(310-230 ª C.) que produziu a mais notável medida da Antiguidade
para a circunferência da Terra, usando semelhança de triângulos e
razões trigonométricas, o que o levou a perceber a necessidade de
relações mais sistemáticas entre ângulos e cordas. Salientamos
que, para tornar possível o trabalho de
Eratóstenes, foi determinante na época o conhecimento do conceito de ângulo e de como medi-lo. O tratado “Sobre a medida da Terra” resume as conclusões a que ele chegou mas, infelizmente, esses escritos se perderam e tudo o que conhecemos sobre o assunto chegou até nós pelos relatos de Ptolomeu e Heron.
Eratóstenes, foi determinante na época o conhecimento do conceito de ângulo e de como medi-lo. O tratado “Sobre a medida da Terra” resume as conclusões a que ele chegou mas, infelizmente, esses escritos se perderam e tudo o que conhecemos sobre o assunto chegou até nós pelos relatos de Ptolomeu e Heron.
Concluímos
que na Grécia, durante os dois séculos e meio compreendidos entre
Hipócrates e Eratóstenes, a trigonometria esteve “engatinhando”,
o que nos leva a concordar com a afirmativa de Boyer (1974), “de
Hipócrates a Eratóstenes os gregos estudaram as relações entre
retas e círculos e as aplicaram na Astronomia mas disso não
resultou uma trigonometria sistemática”.
Surgiu
então, na segunda metade do século dois a.C., um marco na história
da trigonometria: Hiparco de Nicéia (180-125 a.C.). Fortemente
influenciado pela matemática da Babilônia, ele acreditava que a
melhor base de contagem era a 60. Não se sabe exatamente quando se
tornou comum dividir a circunferência em 360 partes, mas isto parece
dever-se a Hiparco, assim como a atribuição do nome arco de 1 grau
a cada parte em que a circunferência ficou dividida. Ele dividiu
cada arco de 1o em 60 partes obtendo o arco de 1 minuto. Sua
trigonometria baseava-se em uma única “função”, na qual a cada
arco de circunferência de raio arbitrário, era associada a
respectiva corda.
Hiparco
construiu o que foi presumivelmente a primeira tabela trigonométrica
com os valores das cordas de uma série de ângulos de 0° a 180°,
em cuja montagem utilizou interpolação linear. Ele observou que num
dado círculo a razão do arco para a corda diminui quando o arco
diminui de 180° para 0°. Resolveu então associar a cada corda de
um arco o angulo central correspondente, o que representou um grande
avanço na Astronomia e por isso ele recebeu o título de “Pai da
Trigonometria”.
Em
linguagem moderna, esse resultado seria:
Hiparco
foi uma figura de transição entre a astronomia babilônica e o
grande Cláudio Ptolomeu, (Klaudius Ptolemaios) autor da mais
importante obra da trigonometria da Antiguidade, surgida no século
dois de nossa era, em Alexandria, a “Syntaxis Mathemática”,
composta de treze volumes. Ela ficou conhecida como Almagesto, que
significa em árabe “A maior” = Al magest, pois os tradutores
árabes a consideravam a maior obra existente na época, em
Astronomia. “As obras de Autolico, Euclides, Ipsicle e Aristóteles
em Astronomia, juntas formavam a Coleção Menor de Astronomia”. A
obra de Ptolomeu era a Coleção Maior: “µ ε γ ι σ τ η“, e
as duas eram indispensáveis para se entender o legado astronômico
da Antiguidade grega.
O
Almagesto é um marco, um modelo de Astronomia que perdurou até
Copérnico, no século XVI. Ptolomeu, na verdade, sistematizou e
compilou no Almagesto uma série de conhecimentos bastante difundidos
em sua época e que a maior parte da obra é baseada no trabalho do
astrônomo e matemático grego Hiparco, cujos livros se perderam.
Isto aparece num comentário sobre trabalhos mais antigos, de Teon de
Alexandria, que viveu dois séculos após e foi um dos matemáticos
que pesquisaram sobre as descobertas dos gregos anteriores. Ele
menciona que Hiparco escreveu doze livros sobre cálculo de cordas,
incluindo uma tábua de cordas.
O
Almagesto sobreviveu e por isso temos suas tabelas trigonométricas e
também uma exposição dos métodos usados nas construções, o que
é de grande importância para nós, visto que tanto daquela época
se perdeu. Como disse Kennedy (1992):“Para os matemáticos o
Almagesto tem interesse devido às identidades trigonométricas que
Ptolomeu divisou para auxiliá-lo a reunir dados para sua tabela de
cordas”.
Dos
treze livros que compõem o Almagesto, o primeiro contém as
informações matemáticas preliminares, indispensáveis na época,
para uma investigação dos fenômenos celestes, tais como
proposições sobre geometria esférica, métodos de cálculo, uma
tábua de cordas e explicações gerais sobre os diferentes corpos
celestes. Os demais livros são dedicados à Astronomia.
Ptolomeu
desenvolveu o estudo da trigonometria nos capítulos dez e onze do
primeiro livro do Almagesto. O capítulo 11 consiste numa tabela de
cordas e o capítulo 10 explica como tal tabela pode ser calculada.
Na verdade, não existe no Almagesto nenhuma tabela contendo as
“funções” seno e cosseno, mas sim a função corda do arco x,
ou crd x, embora naturalmente estes termos não apareçam.
A
“função” corda do arco x era definida como sendo o comprimento
da corda que corresponde a um arco de x graus em um círculo cujo
raio é 60. Assim, na tabela de cordas de Ptolomeu existiam três
colunas: a primeira listando os arcos, a segunda, o comprimento da
corda correspondente a cada arco e a terceira que dava o aumento
médio de crd x correspondente a um acréscimo de um minuto em x.
Esta coluna era usada para interpolações, isto é, para achar o
valor de crd x se x estivesse entre duas entradas na coluna de arcos.
No
Almagesto temos: (a) Uma tabela mais completa que a de Hiparco, com
ângulos de meio em meio grau, de 0° a 180°; (b) O uso da base 60,
com a circunferência dividida em 360 graus e o raio em 60 partes e
frações sexagesimais, não só para expressar ângulos e sim para
qualquer tipo de cálculo, com exceção dos de medida de tempo. (c)
O resultado que passou a ser conhecido como Teorema de Ptolomeu: Se
ABCD é um quadrilátero convexo inscrito num círculo, então a soma
dos produtos dos lados opostos é igual ao produto das diagonais. A
partir desse resultado, operando com as cordas dos arcos, Ptolomeu
chegou a um equivalente das fórmulas de seno da soma e da diferença
de dois arcos, isto é sen (a+b) e sen (a-b). Especialmente a fórmula
para a corda da diferença foi usada por ele para a construção da
tabela trigonométrica. (d) O uso, também usando cordas, do seno do
arco metade:
Em
nosso entender, a mais importante contribuição do Almagesto foi
tornar evidente a possibilidade de uma descrição quantitativa dos
fenômenos naturais, pela Matemática, já que ele desenvolveu, como
muito bem escreveu Aaboe (1984):
“…não
somente seus modelos astronômicos, mas também as ferramentas
matemáticas, além da geometria elementar, necessárias para a
Astronomia, entre elas a trigonometria.(pág. 128). Mais do que
qualquer outro livro, o Almagesto contribuiu para a idéia tão
básica nas atividades científicas, de que uma descrição
quantitativa matemática dos fenômenos naturais, capaz de fornecer
predições confiáveis, é possível e desejável”.
Como
o centro de nossas atenções é a trigonometria, propomo-nos a
investigar aqui apenas a gênese das funções trigonométricas. Isso
significa que o desenvolvimento do conceito de função será
mencionado rapidamente. Um estudo histórico mais detalhado de
funções pode ser encontrado nos trabalhos de Mendes (1994), Schwarz
(1995) e Oliveira (1997).
Na
Grécia Antiga o conceito de função propriamente dito não foi
desenvolvido, mas nos estudos de Aristóteles aparecem idéias sobre
quantidades variáveis e nos trabalhos de cônicas de Arquimedes e
Apolônio é introduzido o “Symptom” de uma curva, que é
definido por eles como a condição para que um ponto pertencesse à
cônica, isto é, uma espécie de dependência funcional.
(Kennedy,1994).
A
Matemática da Antiguidade Clássica não estabeleceu a noção geral
de quantidade variável ou de função e concluímos com Youschkevtch
(1981) que os métodos quantitativos de pesquisa, usados em
Astronomia, tinham como objetivo representar, em tabelas, relações
entre conjuntos discretos de quantidades dadas, mas sem a preocupação
de generalização.
- A CONTRIBUIÇÃO DOS HINDUS
No
século IV da nossa era, a Europa Ocidental entrou em crise com as
invasões dos bárbaros germânicos e com a queda do Império Romano.
O centro da cultura começou a se deslocar para a Índia, que
revolucionou a trigonometria com um conjunto de textos denominados
Siddhanta, que significa sistemas de Astronomia.
O
que chegou até nós foi o Surya Siddhanta, que quer dizer Sistemas
do Sol e é um texto épico, de aproximadamente 400 d.C, escrito em
versos e em sânscrito. Os hindus diziam que o autor do texto foi
Surya, o deus do Sol. Esta obra contém poucas explicações e
nenhuma prova pois, afinal, tendo sido escrita por um Deus, seria
muita pretensão exigir provas. (Boyer, 1974).
A
importância do Surya, para nós, é que ele abriu novas perspectivas
para a Trigonometria por não seguir o mesmo caminho de Ptolomeu, que
relacionava as cordas de um círculo com os ângulos centrais
correspondentes. Nas aplicações da “função” corda, na
Astronomia, era necessário dobrar o arco antes de usá-lo na tábua
de cordas. Naturalmente, era mais conveniente ter uma tábua na qual
o próprio arco fosse a variável independente. No Surya, a relação
usada era entre a metade da corda e a metade do ângulo central
correspondente, chamada por eles de jiva. Isto possibilitou a visão
de um triângulo retângulo na circunferência,
como
na Figura 4.
Definiam
o jiva como sendo a razão entre o cateto oposto e a hipotenusa.
A
metade da corda dividida pelo raio do círculo é o seno da metade do
arco (ou da metade do ângulo central correspondente a todo o arco).
Com
os hindus, as principais “funções” trigonométricas foram
introduzidas e os métodos de tabulação se aperfeiçoaram,
particularmente os de interpolação quadrática e linear. Por volta
de 500 d.C., o matemático hindu Aryabhata já calculava semi cordas
e usava também o sistema decimal, desenvolvido aproximadamente em
600 d.C. Ao surgirem, os numerais hindus continham nove símbolos e
não havia símbolo para o zero. Quando os hindus introduziram os
conceitos de semi corda e de seno, demostraram algumas identidades, e
encontramos em Varahamihira, no ano 505 d.C., o equivalente verbal de
sen² θ + cos² θ = 1.
Após
os hindus, foram os árabes e os persas a dar sua contribuição à
trigonometria.
- A TRIGONOMETRIA DOS ÁRABES E PERSAS
O
Império Muçulmano ou Árabe, além da expansão econômica, viveu
extraordinário avanço nos diversos campos das artes e da ciência
do fim do século VIII até o século XI, com destaque ao século IX.
A expansão do saber muçulmano deveu-se, sobretudo, à difusão da
língua árabe, que substituiu o grego na condição de língua
internacional. O emprego do árabe permitiu a fixação e a
preservação de obras antigas, que foram traduzidas e assim
difundidas entre os intelectuais muçulmanos.
Podemos
dizer que a influência árabe começou com a fundação da Escola de
Bagdad, no século IX, e um dos seus maiores expoentes foi o príncipe
da Síria Mohamed-ben-Geber, conhecido como AL Battani
(aproximadamente 850 a 929 d.C.), ou Albategnius, nas traduções
latinas, chamado o Ptolomeu de Bagdad.
Os
estudos de AL Battani ficaram entre o Almagesto e Siddhanta e foi por
sua influência que a trigonometria hindu foi adotada pelos árabes,
principalmente a partir de sua genial idéia de introduzir o círculo
de raio unitário e com isso demonstrar que a razão jiva é válida
para qualquer triângulo retângulo, independentemente do valor da
medida da hipotenusa.
Se
um triângulo retângulo tem um ângulo agudo θ/2 então, quaisquer
que sejam as medidas do cateto oposto e da hipotenusa, podemos
afirmar que:
Com
esta fórmula pôde-se construir uma tábua, de 1/4 a 90 graus,
variando de 1/4 em 1/4 de graus, ou seja, uma tabela de senos, apesar
deste nome não ter sido usado para designá-la. Al-Battani estava
interessado em calcular a altitude do sol, para isso foi necessário
usar as razões trigonométricas e construir tábuas mais precisas
que as existentes na época. Depois de Al-Battani, digno de nota
entre os matemáticos árabes foi Abû’l Wêfa que, em 980, iniciou
uma organização, uma sistematização de provas e teoremas de
trigonometria. Destacamos também o astrônomo Persa Nasîr ed-dên
al-Tûsî autor, em 1250, do primeiro trabalho no qual a
trigonometria plana apareceu como uma ciência por ela própria,
desvinculada da Astronomia. Isto seria retomado na Europa, no século
XV, quando Regiomontanus estabeleceu a trigonometria como um ramo da
Matemática.
Quando
a Escola de Bagdad entrou em declínio, o centro das atividades
intelectuais deslocou-se para o sul da Europa, na Península Ibérica,
e com ele o estudo da trigonometria, particularmente nos triângulos
esféricos necessários aos estudos astronômicos. A cidade de Toledo
tornou-se o mais importante centro da cultura, a partir de 1085,
quando foi libertada pelos cristãos do domínio mouro. Isto ocorreu
porque para ela afluíram os estudiosos ocidentais, visando a
adquirir o saber muçulmano. O século XII na História da Matemática
foi, então, um século de tradutores dos quais citamos Platão de
Tivoli, Gerardo de Cremona, Adelardo de Bath e Robert de Chester .
Com isso, a Europa teve acesso à matemática árabe e à herança
grega que havia sido conservada, na medida do possível, por eles.
(Struik, 1992).
- A INFLUÊNCIA DO CONHECIMENTO ÁRABE SOBRE OS EUROPEUS
Diversos
dos astrônomos árabes se deslocaram para a Espanha para trabalhar e
passaram a difundir o saber. Os mais importantes escritores foram os
astrônomos Ibrâhîm ibn Yahyâ al Naqqâsh, (conhecido como Abû
Ishâq ou Ibn al-Zarqâla ou, nas traduções latinas como Arzachel,
e que viveu em Córdoba) autor de um conjunto de tábuas
trigonométricas em 1050, e Jabir ibn Aflah (conhecido como Jeber ibn
Aphla, tendo vivido em Sevilha), cujos estudos astronômicos de 1145
se mostraram tão interessantes que, séculos mais tarde (1543),
foram publicados em Nuremberg. O matemático europeu mais habilidoso
do século XIII foi Fibonacci (1170-1250). Ele estudou no norte da
África e depois viajou pelo Oriente como mercador, com isso sofreu
grande influência dos árabes. Sua obra “Practica Geometriae”,
de 1220, é uma aplicação da trigonometria árabe na Agrimensura. O
rei Alfonso X de Castela ordenou, no ano 1250, a estudiosos
(cristãos, mouros e judeus) de Toledo que traduzissem os livros de
Astronomia e modernizassem as tábuas trigonométricas árabes. Em
1254 foram concluídas as Tábuas Afonsinas, que junto com Os Libros
del Saber de Astronomia foram considerados de grande valia, uma vez
que “a cultura astronômica preservada na Península Ibérica foi o
esteio da arte portuguesa de navegar, no século XV” (Serrão, pág.
49,1971).
- A TRIGONOMETRIA NA EUROPA A PARTIR DO SÉCULO XIV
Na
Europa do século XIV alguns importantes passos foram dados para o
desenvolvimento da Matemática.
Pela
primeira vez, as noções de quantidades variáveis e de função são
expressas e, tanto na Escola de Filosofia Natural do Merton College
de Oxford quanto na Escola de Paris, chega-se à conclusão de que a
Matemática é o principal instrumento para o estudo dos fenômenos
naturais.
Com
o início do estudo da velocidade instantânea ou pontual e a atenção
especial dada ao movimento, tornou-se necessário desenvolver um
suporte matemático.
Paralelamente
ao desenvolvimento da trigonometria, que já vinha ocorrendo na
Europa desde o século XI com a retomada do conhecimento árabe,
ocorreu o desenvolvimento das funções. Neste campo surgiu Nicole
Oresme (1323 -1382) com seu “Treatise on the configuration of
Qualities and Motions”, no qual introduziu a representação
gráfica que explicita a noção de funcionalidade entre variáveis
(no caso velocidade por tempo). Seu trabalho influenciou Galileu
(1564-1642) e Descartes (1596-1650) nos séculos XVI e XVII. Com os
estudos de Oresme, começou a se consolidar o conceito de função.
No século XIV, Purbach, na Inglaterra, retomou a obra de Ptolomeu e
computou uma nova tábua de senos, muito difundida entre os
estudiosos europeus. Purbach foi o mestre de Regiomontanus
(1436-1475), um dos maiores matemáticos do século XV, cujo trabalho
teve grande importância, estabelecendo a Trigonometria como uma
ciência independente da Astronomia.
Regiomontanus
escreveu um “Tratado sobre triângulos”, em cinco livros,
contendo uma trigonometria completa. A invenção posterior dos
logaritmos e alguns dos teoremas demonstrados por Napier (1550-1617)
mostram que a Trigonometria de Regiomontanus não diferia basicamente
da que se faz hoje em dia. No “Tratado” ele calculou novas tábuas
trigonométricas, aperfeiçoando a de senos de Purbach, e introduziu
na trigonometria européia o uso das tangentes, incluindo-as em suas
tábuas. Podemos dizer que foi ele quem lançou as fundações para
os futuros trabalhos na trigonometria plana e esférica. Copérnico
(1473-1543) também contribuiu ao completar, em 1520, alguns
trabalhos de Regiomontanus, que incluiu em um capítulo de seu “De
Lateribus et Angulis Triangulorum”, publicado separadamente por seu
discípulo Rhaeticus em 1542.
Com
o advento da imprensa, a cultura se difunde e, a partir daí, nenhum
grupo nacional conserva a liderança. Na Antiguidade foi a Grécia a
sobrepujar os outros povos do Ocidente, na Idade Média o Mundo Árabe
mas, do século XV em diante, com o desenvolvimento do Racionalismo,
a atividade matemática desloca-se repetidamente para diversos
países. O primeiro trabalho impresso em trigonometria provavelmente
foi a “Tabula Directionum” de Regiomontanus, publicado em
Nuremberg certamente antes de 1485, pois a segunda edição data
deste ano, em Veneza. As seis funções trigonométricas foram
definidas como funções do ângulo, em vez de funções do arco, e
subentendidas como razões, pela primeira vez, no “Canon
DoctrinaeTtriangulorum” de Joachim Rhaeticus em Leipzig, 1551,
embora ele não tenha dado nomes para seno, cosseno ou cossecante,
exceto perpendiculum, basis e hypotenusa.
Rhaeticus
(1514-1576) retomou, um século depois, as tábuas de Regiomontanus
de 1464, com maior rigor nos cálculos. Aumentou a precisão para
onze casas decimais e os senos, cossenos, tangentes e secantes foram
calculados de minuto em minuto para os arcos do primeiro quadrante e
de dez em dez segundos para o arco de 1°. Ele foi o primeiro a
adotar a organização das tábuas em semiquadrantes, dando os
valores dos senos, cossenos e tangentes de ângulos até 45° e
completando a tabela com o uso da igualdade sen x = cos (≠/2-x).
Deve-se também a Rhaeticus a introdução das secantes na
trigonometria européia e os cálculos do sen nθ em termos de
senθ, que foram retomados e aprimorados por Jacques Bernoulli, em
1702.
Neste
relato histórico não poderíamos deixar de mencionar Viète
(1540-1603), pois foi ele quem adicionou um tratamento analítico à
trigonometria, em 1580. Foi o primeiro matemático a usar letras para
representar coeficientes gerais, o que representou grande progresso
no campo da Álgebra. Também construiu tábuas trigonométricas e
calculou o sen 1’ com treze casas decimais.
Viète
iniciou o desenvolvimento sistemático de cálculo de medidas de
lados e ângulos nos triângulos planos e esféricos, aproximados até
minutos, e com a ajuda de todas as seis funções trigonométricas.
Além disso, foi ele que introduziu métodos gerais de resolução em
matemática. É dele a idéia de decompor em triângulos retângulos
os triângulos oblíquos, para determinar todas as medidas dos seus
lados e ângulos. Isto está em sua obra “Canon Mathematicus”. No
livro “Variorum de rebus mathematicis” aparece um equivalente da
nossa lei das tangentes:
Com
A e B ângulos e a e b os arcos respectivos. Na verdade, esta relação
só foi publicada pelo matemático dinamarquês Thomas Fincke, no seu
“Geometria Rotundi”, em Basel 1583, apesar de ser devida a Viète.
A próxima figura notável na trigonometria foi Pitiscus que publicou
um tratado, em 1595, no qual corrigiu as tábuas de Rhaeticus e
modernizou o tratamento do assunto. A palavra trigonometria aparece
pela primeira vez, como título de um livro seu. Seguindo Pitiscus,
destacamos o britânico Napier, que estabeleceu regras para
triângulos esféricos, que foram amplamente aceitas, enquanto sua
maior contribuição, os logaritmos, ainda estavam sendo analisados e
não eram reconhecidos como válidos por todos.
Suas
considerações sobre os triângulos esféricos foram publicadas
postumamente no “Napier Analogies”, do “Constructio” no ano
de 1619, em Edinburgh.
Outro
grande expoente em trigonometria foi Oughtred. Em seu trabalho, de
1657, preocupou-se em desenvolvê-la do ponto de vista simbólico. No
entanto, como o simbolismo algébrico estava pouco avançado para
tornar isto possível, a idéia não foi aceita até que Euler
exercesse sua influência neste sentido no século XVIII.
John
Newton (1622-1678) publicou em 1658 o tratado “Trigonometria
Britannica” que, embora baseado nos trabalhos de Gellibrand e
outros escritores, era o mais completo livro do tipo que havia
surgido em seu tempo. Newton e Gellibrand anteciparam a tendência
atual de introduzir divisões centesimais do ângulo nas tábuas
trigonométricas.
O
próximo importante passo em trigonometria foi dado por John Wallis
(1616-1703) ao expressar fórmulas usando equações em vez de
proporções, e por trabalhar com séries infinitas. Sir Isaac Newton
(1642-1727) também deu sua contribuição à trigonometria pois,
paralelamente aos seus estudos de cálculo infinitesimal apoiados
fortemente na geometria do movimento, trabalhou com séries
infinitas, tendo expandido arcsen x em séries e, por reversão,
deduzido a série para sen x. Além disso, comunicou a Leibniz a
fórmula geral para sen (nx) e cos(nx) tendo, com isso, aberto a
perspectiva para o sen x e o cos x surgirem como números e não como
grandezas, sendo Kastner, em 1759, o primeiro matemático a definir
as funções trigonométricas de números puros.
Finalizando,
vale mencionar que Thomas-Fanten de Lagny foi o primeiro matemático
a evidenciar a periodicidade das funções trigonométricas, em 1710,
e a usar a palavra “goniometry”, em 1724, embora mais num sentido
etimológico do que como medida de ângulo, como agora é o caso.
- A TRIGONOMETRIA INCORPORADA PELA ANÁLISE MATEMÁTICA
A
trigonometria toma a sua forma atual quando Euler (1707-1783) adota a
medida do raio de um círculo como unidade e define funções
aplicadas a um número e não mais a um ângulo como era feito até
então, em 1748. A transição das razões trigonométricas para as
funções periódicas começou com Viète no século XVI, teve novo
impulso com o aparecimento do Cálculo Infinitesimal no século XVII
e culminou com a figura de Euler.
Uma
idéia genial de Euler foi criar a função E, que denominaremos
função de Euler. Ela associa a cada número um ponto de um círculo
C1 unitário e centrado na origem do plano cartesiano. Seu domínio é
o conjunto ℜ [4] e o contra domínio é C1 A função E: ℜ → C1
associa a cada x ∈ ℜ, um ponto P ∈ C1, P = (a, b) pertence a C1
se e somente se a² +b²=1
Como
essa função faz a correspondência entre cada número x e os pontos
do círculo C1, ao número zero corresponde o ponto A = (1,0) e, dado
x ∈ ℜ, x > 0, mede-se, a partir desse ponto A, um arco de
comprimento x, no sentido anti - horário. A extremidade do arco é
um ponto P = E(x). Se x<0, mede-se, a partir de A, um arco de
comprimento x, no sentido horário, e se obtem o ponto P = E(x)
correspondente. A função E: ℜ → C1 consiste em envolver a reta
ℜ como se fosse um fio inextensível sobre o círculo C1 que, por
sua vez, é imaginado como um carretel.
Definindo-se
as funções: h1:C1 → ℜ por h1( P(a,b))=a e h2:C1→ ℜ por
h2(P(a,b))=b, e tomando-se as compostas: f = h1 o E e g = h2 o E,
podem-se definir as funções seno e cosseno de um número real x e
não mais de um ângulo, como era anteriormente necessário. Dado x ∈
ℜ, a ele se associa um ponto P, do círculo, sendo: P=E(x)=(a,b).
Considerando a = cos x e b = sen x definimos: f :ℜ → ℜ e g:ℜ
→ ℜ f (x) = sen x g(x) = cos x. Sendo cosx a abscissa e senx a
ordenada de P = E(x).
Vide
figura abaixo.
Como
muito bem falou Lima (1991):“A função de Euler E: R→ C1, que
possibilita encontrar senx e cosx, como função de uma variável
real x, abriu para a trigonometria as portas da Análise Matemática
e de inúmeras aplicações às Ciências Físicas”. O tratamento
analítico das funções trigonométricas está no livro “Introductio
in Analysin Infinitorum”, de 1748, considerado a obra chave da
Análise Matemática. Nele, o seno deixou de ser uma grandeza e
adquiriu o status de número obtido pela ordenada de um ponto de um
círculo unitário, ou o número definido pela série:
Onde
i é a unidade imaginária, possibilitando definir as funções seno
e cosseno a partir dessas relações, inserindo-as no campo dos
números complexos.
Enfim
a trigonometria, no início uma auxiliar da Agrimensura e da
Astronomia, tornou-se primeiramente autônoma e por fim
transformou-se em uma parte da Análise Matemática, expressando
relações entre números complexos, sem necessidade de recorrer a
arcos ou ângulos.
Foi
um longo caminho da Humanidade para chegar até a trigonometria que
hoje ensinamos aos nossos alunos. Nesse texto não tratamos da
evolução do conceito de ângulo que é subjacente e essencial ao
desenvolvimento da trigonometria, nem da construção das tábuas
trigonométricas ou da trigonometria esférica, indispensável na
Astronomia. Nos propusemos apenas a descortinar parte dessa
trajetória. Fica a nossa mensagem ao professor para que, ao ensinar
trigonometria, de alguma forma se discuta com os alunos questões que
os levem a perceber que o conhecimento matemático não "caiu do
céu" ou surgiu pronto e acabado e que de alguma forma a
evolução possa ser acompanhada e alguma parte do caminho feita com
eles.
Referências
Bibliográficas:
AABOE,
A. “Episódios da História Antiga da Matemática” trad. de J.B.
Pitombeira de
Carvalho
- Sociedade Brasileira de Matemática, Rio de Janeiro, 1984.
ARSAC,G.
“L’ Origine de la Demonstration: Essai d’ Epistémologie
Didactique”, Revista
Recherche
en Didactique des Mathématiques (RDM), vol 8, nº 3, pp 267-312, Ed.
La
Pensée
Sauvage, France, 1987.
BELL,
E.T.- “The Development of Mathematics”, 2ª edition. McGraw-Hill
Book Company, Inc.,
New
York, U.S.A., 1945.













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